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[…] De que outra forma poderemos escrever se não das coisas que não conhecemos ou conhecemos mal? É precisamente aí que nós imagi­namos ter algo a dizer. Escrevemos nas fronteiras do nosso conhecimento, no limite que o separa da nossa ignorância e transforma um no outro […]

Deleuze, Diferença e Repetição

O retorno implica ensaiar uma repetição de contingências com resultados diferentes. É um eterno encadeado em que cada momento se reprocessa indefinidamente. As novas funções são então aplicadas a objectos passados gerando imagens aparentemente desfasadas da sua envolvência mas que refrescam uma experiência que caso contrário se poderia tornar demasiado pesada.

É através do regresso que se apuram os progressos, ou se preferirmos a versão budista, transformamos os venenos em remédios. Tendo como palavra de ordem a transmutação de propriedades entre vários meios, resolvi explorar a fotografia como um pintor e pintar usando nomenclaturas das áreas científicas que fizeram parte do meu percurso. Há então a intenção de trabalhar e desconstruir as fronteiras entre estas áreas e nesse sentido continuo a escrever como quem desenha.

No trabalho de escultura e instalação desenvolvido em Inglaterra sempre usei objectos sem qualquer valor que tentava devolver à vida. Essa intenção continua presente no meu trabalho fotográfico onde regenerei poluição visual do quotidiano citadino para produzir uma série de imagens que exploram o lado sedutor da forma, da expressão e da cor. Dado que é expressamente proibido tirar fotografias no metro de Londres podemos dizer que são imagens ilegais que pretendem desmontar o que há de mais perverso na publicidade e evidenciar as propriedades que tem em comum com a pintura, o desenho e a colagem.

Nas pinturas sobre tela e sobre papel há sempre uma vontade de abrir espaços, arquitectar memórias e planear mecanismos, evidenciar estruturas vivas e redes de ligações. Nestes mapas de ideias o processo de pintar está incluído na estrutura molecular em que o objectivo é ligar A a B. Usei a intimidade que sinto com estas linguagens mais rígidas e frias para expressar emoções e construir associações desconstruindo experiências. Esta intimidade a que me refiro não é a do trabalho de dimensões reduzidas que nos obriga a aproximar mas de uma exigência da nossa curiosidade que nos motiva a completar uma ligação e a descobrir os pormenores de uma estrutura.

Na negação das propriedades constritoras da ciência encontrei um espólio de imagens, formas de interligar ideias e construir redes que não têm exterior.

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